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Mundo Cão!

Acharam que eu morri, né? Seu bando de malas desocupados! Por que não param de me amolar? O que acontece é que esse site tem tido um número de visitas muito grande. É muita gente. E isso me deu uma paranoia tremenda. Acho que tenho humanofobia. Passei um bocado de dias sem conseguir entrar aqui. Eu fujo de qualquer coisa ou lugar que reúna pessoas.

É triste, viu. Não sei o que eu fiz de errado para ter nascido gente. Eu juro que tenho muito ódio disso. Fui agraciado com a pior forma de nascimento que poderia existir .

Andei refletindo muito a respeito disso. E cheguei à conclusão de que eu poderia ter nascido como qualquer outro tipo de animal. Seria muito melhor.

Pensem comigo. Eu poderia ter nascido um macaco. Se vocês me amolassem, eu dava uma banana pra vocês. No sentido real e no sentido figurado. Tanto faz. E viveria pendurado em árvores muito altas. Sempre longe das pessoas. E só faria macaquisses. Eu ia, literalmente, catar coquinho. E ia ser feliz assim! Acho que gostaria de ser um Chimpanzé! Ou um babuíno! Andando com a bunda de fora sem me importar com o que os outros acham. Consigo até imaginar…


Ou senão eu poderia ser um cachorro. Quer dizer, cachorro não. Cães se relacionam com pessoas. Normalmente tem donos. Que interagem com esses cães. E passam a mão em suas cabeças o tempo todo. Ah não. Isso não. Tô fora.

Na pior das hipóteses, poderia ser um urso. Hibernar 6 meses por ano! Isso é perfeito. A vida ideal. Ursos são selvagens. Vivem isolados. E devoram qualquer ser vivo que ouse se aproximar deles. Poderia ser até um urso polar. Pra ficar mais isolado ainda. Tanto faz. Acho que ser um urso combinaria comigo.

Só tenho certeza de uma coisa. Eu jamais seria uma hiena. Acho que é até meio óbvio o motivo. Não preciso explicar.

Já sei. Acho que eu poderia ser uma tartaruga. Que já anda com a casa nas costas! Não é perfeito? Se eu precisasse fazer alguma coisa, levava a casa comigo. No primeiro sinal da presença de alguém, já entraria em casa. Já repararam que a única coisa que a tartaruga consegue fazer rapidamente é entrar em seu casco? É genial! Acho que, definitivamente, eu quero ser uma tartaruga. E continuar sendo essa casca-grossa que eu sempre fui. E seguir minha vida pacata. Devagar e sempre. Mas esperando pelo juízo final. Que uma hora vai chegar!

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O Pesadelo não acabou

Como isso pode acontecer? Não pode ser verdade. E eu que achava que não tinha mais nada pra reclamar sobre essa época do ano. Será que eu deveria virar um urso e hibernar por 6 meses?

Desde o final da semana passada já notei o retorno de um famoso evento dos finais de ano: as confraternizações de firma. Aquela galera enorme se reunindo em churrascarias, aquele clima de oba-oba, amigo secreto, todo mundo bebendo bastante. Um bando de badernistas. Mas enfim, normal, como sempre. Desde que essas churrascarias e essas pessoas estejam longe de mim, não vejo problema. Mas meu pesadelo aconteceu nesta noite de terça, antevéspera de Natal.

Bem perto da minha casa, acreditem, existe uma churrascaria. Bem tranqüila, não tem muito movimento, é sossegada. Mas eis que vou chegando em casa e, já de longe, noto uma grande concentração de gente. Percebo que ocorre ali uma dessas confraternizações. Mas esse pessoal… Esse pessoal estava bem animado. O barulho era alto. Realmente alto. E, na hora em que cheguei, estava rolando um karaokê. Não pode ser. Isso é tortura demais pra mim. Mas o pior ainda estava por vir. Já não bastavam os cantores desafinados e o pessoal animado cantando junto. No auge da alegria coletiva, ouço começar a tocar um grupo de pagode. O povo foi a loucura. Eeeee!!!! Quanta alegria. Aquele pagode se estendeu por algumas horas. E eu, tentando não ouvir aquela balbúrdia. Tentava não ouvir e pensava no que eu poderia fazer. Tacar uma bomba? Não, nem tenho como fazer isso. Chamar a polícia? Não tenho saco pra ligar no 190. E pensava com meus botões: “Mas hoje ainda é dia 23 de dezembro. O fim do ano não é só daqui a uma semana?”

Enfim. Pensei que talvez isso pudesse ser alguma penitência que eu tenho que pagar em vida. Algum castigo. Como de costume, tranquei-me em minha biblioteca, peguei meu saco de pistaches, e, neste dia, coloquei um disco do Nat King Cole no volume bem alto. Os graves que saiam do pagodão ainda chegavam na minha casa, mas consegui fugir um pouco daquela encheção. Durante as músicas, voltei a viajar na imaginação. Afinal, por que eu não posso mesmo ser igual um urso e hibernar por alguns meses? Seria uma boa idéia.

Acho que vou começar a praticar. O problema é escolher que época do ano eu ia querer evitar e passar dormindo. Natal? Ano Novo? Carnaval? Dia dos Pais? Dia das Mães? Dia das Crianças? Não é possível. Odeio todas. Qual será a solução? Será que eu devo morrer?

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